
Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Desemprego subiu para 9.2%

LUSA :: Código não combate a precariedade
"Penso que o objectivo de combater a precariedade com a entrada em vigor das novas medidas não irá ser conseguido na totalidade. [A situação] é capaz de melhorar ligeiramente, mas continua a ser muito mais benéfico contratar uma pessoa a recibo verde do que fazer um contrato por tempo indeterminado", sustentou Ana Duarte, da consultora, à Lusa.
Aqui a notícia completa
Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Ministra do Trabalho :: «o anterior governo lançou uma série de políticas muito importantes»

A ministra referiu que «o anterior governo lançou uma série de políticas muito importantes» e que essas devem ser aprofundadas. Embora tenha lançado também a ideia que o governo vai lançar meia-dúzia de rebuçados para a malta que trabalha se acalmar.
Nada de concreto foi adiantado sobre ideias ou políticas de trabalho, no entanto Helena André sentiu a necessidade de expressar essa ideia de continuidade pelo trabalho feito na legislatura anterior, e de aprofundamento ou consolidação da mesma, o que nada de bom perspectiva para a luta contra a exploração.
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Brincadeiras de crianças

Feitas as contas pagamos mesmo para trabalhar. Tanto pior como empresas como a Lúdico Ideias deve a tudo e a todos meses e meses quando não chegam a anos.
Muitos foram os professores que já desistiram de receber o que já eram verdadeiras misérias. No entanto empresas como esta última deviam ser denunciadas publicamente, pq não chega ficarem proibídos de concorrer com umas câmaras mas irem concorrer a outras.
Testemunho enviado aos Precári@s Inflexíveis por um amigo Anónimo
Função pública abre 5 mil estágios :: Propaganda para precários

A exploração da precariedade da vida das pessoas continuará a ser fortemente assumida pelo governo dando o mote às empresas, e no fim, as pessoas voltarão rapidamente para o desemprego e com a garganta apertada, muito apertada.
Mata-se a fome a estes 5 mil durante uns meses...
"Democracia, é lá fora?"
«A Fleximol é uma empresa do Cartaxo que empregava 171 trabalhadores quando entrou em Lay-Off, no passado mês de Janeiro. Recentemente, os trabalhadores decidiram criar uma Comissão de Trabalhadores para enfrentar a situação difícil em que se encontram.»
«A Administração da Empresa teve uma resposta rápida e eficaz: Despediu todos os trabalhadores da Comissão Sindical e da Comissão de Trabalhadores, efectivos e suplentes. Juntou-lhes mais alguns (todos subscritores da lista vencedora) e chamou-lhe um despedimento colectivo. As razões eram variadas. Umas tão concretas como "falta de versatilidade", outras tão credíveis como "não sabe ler um cartão de trabalho", aplicadas a trabalhadores com mais de dez anos de casa.»
«O problema é que as normas que protegem os representantes dos trabalhadores só se aplicam nos despedimentos individuais. E como o despedimento colectivo, na nossa legislação, só precisa de justa causa em teoria (na prática, a lista de justificações permite invocar basicamente qualquer pretexto), o único recurso dos trabalhadores é a entidade que fiscaliza a legalidade das relações laborais (ACT), que, contactada por escrito há duas semanas através do Eng.º Pedro Brás, do Centro Local Lezíria e Médio Tejo, ainda não considerou oportuno pronunciar-se.»
«O caso da Fleximol (nome singularmente adequado) não é único e é revelador. Os direitos do trabalho não dizem respeito apenas à esfera da vida na empresa. São uma condição de democracia. Cada situação como a da Fleximol, "ensina" aos trabalhadores que as liberdades de expressão e de associação não são para todos e que quem se equivocar a esse respeito, sabe onde é a porta da rua. O que fará a próxima Ministra do Trabalho, que diz que é sindicalista, a este respeito?»
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Impresa (Pinto Balsemão) :: Lucros Record + Descida de Custos com Pessoal
Parece no entanto que nem toda a gente teve resultados positivos no ano de 2009 na Impresa, designadamente os trabalhadores. Apenas no sector da televisão foi executada uma quebra de 17,3% nos custos com pessoal.

Os Custos Operacionais globais desceram 19,2%, uma redução de 11,9 M€, em relação às contas do 3º trimestre de 2008, sendo que os custos com o pessoal baixaram cerca de 3 milhões de euros, de 47.3M€ para 44.3M€. É ilucidativo.
Ver aqui os resultados (e o palavreado mórbido) e aqui.
Não acredito

A teoria liberal formula diversas hipóteses a seu belo prazer e, sem nunca as fundamentar, forma o coro de gralhas engravatadas para que de teorias se façam dogmas.
Infelizmente para eles, mas também para nós, os dogmas liberais nunca correspondem à verdade e o desemprego não se rege pelas curvas da oferta e da procura.
Ontem uma manchete Jornal Económico anunciava que os licenciados são os mais afectados pela subida do desemprego (noticia aqui), assim, em Setembro, mais de um terço da subida do desemprego verificada nos centros do IEFP fez-se à conta dos licenciados. E, mais curioso ainda fez-se à custa de pessoas que tinham licenciaturas em áreas consideradas inafectáveis pelo desemprego, como física, matemática, química, etc.
Lá se vai a hipotese de que o desemprego tem, essencialmente, causas estruturais, nomeadamente de falta de qualificações da mão-de-obra.
Hoje ainda, soube-se também que Portugal baixou 5 lugares no ranking do Fórum Económico Mundial relativamente à igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho (notícia aqui). Assim se prova que, em tempos de crise, as mulheres continuam mais fracas no mundo de trabalho e mais desprotegidas quando chegam os momentos de contracção económica.
Isto também vai contra a hipótese tão propagandeada de que o capitalismo (selvagem) aumenta a igualdade de género porque toma apenas decisões racionais baseadas na eficácia das opções e não em escolhas com base em preconceitos.
Se não fora sentirmos na pele estas contradições podia ter piada assistirmos à queda dos dogmas de quem manda no mundo.
Ricardo Santana
Universidade de Lisboa :: Recrutamento de precários para exploração laboral... tudo às claras

Hoje recebemos um anúncio da Universidade de Lisboa que abre concursos de bolsas (para licenciados) para realizar trabalho, mas onde sublinham que em caso algum o bolseiro terá o estatuto de trabalhador. É apenas mais um escândalo. E diz assim:
Pretende-se que os candidatos a seleccionar venham a desenvolver trabalho no NIC/UL, nomeadamente na execução de apoio na administração de sistemas da Universidade de Lisboa.
...
...
Ver aqui a lista de anúncios ilegais e injustos da reitoria da Universidade de Lisboa.
Ver aqui um dos anúncios em causa.
João Proença :: Um amigo sempre presente...
João Proença disse ainda que o anterior ministro do trabalho, Vieira da Silva, fez algumas reformas importantes, tendo a UGT estado de acordo com a maioria. Aliás, não só esteve com o ministro como esteve com os patrões que também esfregaram as mãos e disseram que o ministro tinha feito melhor do que um governo de direita.
Fazemos referência aqui ao início do discurso de João Proença, o ano passado, na celebração dos 30 anos da central sindical com os agradecimentos pela presença e apoio ao "estado maior" da política executiva portuguesa: Cavaco Silva (PSD), Durão Barroso(PSD), Vieira da Silva(PS), António Costa(PS), Almeida Santos(PS), Ferreira Leite (PSD), Alberto Martins (PS), membros do governo, embaixadores... e termina generalizando: Amigos.
" Senhor Presidente da República, Excelência
Senhor Presidente da Comissão Europeia, Excelência
Senhor Ministro do Trabalho e Solidariedade Social
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Senhor Presidente do PS
Senhora Presidente do PSD
Senhor Presidente do Grupo Parlamentar do PS e Senhores Deputados
Senhor Provedor de Justiça
Senhora e Senhores Membros do Governo
Senhores Embaixadores
Senhores Representantes dos Parceiros Sociais
Senhoras e Senhores Convidados
Caras e Caros Fundadores da UGT
Caras e Caros Sindicalistas
Minhas Senhoras e Meus Senhores
Amigos ... "
Porque precisamos todos saber quais os nossos amigos, os nossos inimigos... e os outros.
Ver wehavekaosinthegarden
Notícia aqui
Discurso aqui
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Precariedade Arquelógica
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Sobre o jornalismo que temos

As críticas aos jornalistas são diárias e muitas delas certeiras. Mas muitas pessoas que criticam esquecem ou ignoram as condições em que somos obrigados a fazer jornalismo hoje.
É raro um jornalista português escrever e publicar no próprio jornal onde trabalha um texto onde se desmascara a realidade das redacções: dos recibos verdes à perda de condições de trabalho em geral. Vindo de uma jornalista do "PÚBLICO", é ainda mais notável que este texto de opinião tenha sido publicado como o foi ontem. E sobretudo é notável que tenha sido escrito, num momento em que os próprios jornalistas do "PÚBLICO" se continuam a debater com ameaças e chantagens da administração, com despedimentos adiados por uns tempos através de uma redução salarial. E é por tudo isto que republico aqui o texto da jornalista Alexandra Lucas Coelho, para que o debate sobre a precariedade no jornalismo continue.
Estive no mesmo concerto, ouvi o José Mário Branco a chamar-nos nomes e já passei por situações semelhantes à do tal debate. É comum sermos criticados por pessoas que ignoram que os jornalistas não são um todo homogéneo. E que quase todos trabalham na corda-bamba. A propósito, ainda estará nas bancas o "Le Monde Diplomatique" de Outubro, que inclui um texto meu sobre o que é trabalhar em jornalismo de forma precária. O artigo chama-se "Vamos brincar aos jornais" e tentei que servisse para chamar os bois pelos nomes, mas convenhamos que um artigo num jornal de grande circulação como o "PÚBLICO" terá bastante mais leitores.
abraço,
João Pacheco (jornalista e membro dos Precários-Inflexíveis)
PS - cá vai então o artigo de Alexandra Lucas Coelho:
"As costas largas
Por Alexandra Lucas Coelho
Viagens com bolso
O jornalismo é uma besta porque não conta o que acontece, e é uma besta porque conta o que acontece. Nós, jornalistas, somos a besta de todos vós, e assinamos por baixo ou por cima.
Margarida Mota, minha cúmplice noExpresso, lembrou-me que há uma expressão para isto: costas largas.
Conheci a Margarida em Jerusalém. Ela estava lá de férias, a fazer aquilo que gostaria de fazer em trabalho se houvesse dinheiro e interesse. Isto foi em 2005. Reencontrámo-nos domingo no café Guarany do Porto. A afegã Malalai Joya ia falar, e ambas tínhamos entrevistas com ela.
Como o meu comboio chegou horas antes, instalei-me no Guarany a trabalhar até aparecer uma estudante que pôs medicina em primeiro e chorou quando se viu em jornalismo, a Joana. Agora está no segundo ano.
- E não me imagino a fazer outra coisa.
Apesar dos jornais estarem a fechar. Apesar dos jornalistas cederem parte do salário para não haver despedimentos. Apesar dos falsos recibos verdes e dos recibos à peça por 150 euros. Apesar dos jovens jornalistas terem de saber escrever, fotografar, filmar e gravar som mas não terem emprego. Apesar da rádio ser cada vez maispodcaste menos em directo, até ao fim da rua, até ao fim do mundo. Apesar dos telejornais serem cada vez mais oprime time da ficção.
E o espírito do esgoto derrama, cobre-nos com a sua porcaria: mercenários, arrivistas, criados profissionais a fazerem do jornalismo o bobo, o bombo, a besta. Para não falar desse limbo extra-judicial que é a internet dos anónimos - racistas, cobardes, criminosos, gente que se desse o nome seria julgada.
Há dias em que só apetece saber karaté, como um jornalista que cresci a ler, José Amaro Dionísio.
A vinda de Malalai foi organizada pelo Bloco de Esquerda. Depois de Malalai falar, a eurodeputada Marisa Matias desancou em tudo o que se noticia sobre o Afeganistão, rematando: "Não precisamos de tradutores." Uma senhora na assistência quis saber se havia jornalistas presentes para "publicitar" tudo o que finalmente estava ali a ser dito.
Foi então que olhei para a Margarida, do outro lado da sala (e também lá estava, pelo menos, a Lusa). Porque, além daquela lição pós-autárquica que o Rui Tavares diz que o Bloco precisa de aprender, haverá uma lição anti-arrogância mais geral: para dizer como é bom ouvir uma afegã, não é preciso dizer que antes do Bloco era o dilúvio.
Nos jornais, em Portugal, não precisámos de Marisa Matias para saber quem é Malalai Joya e contar a história dela, e de muitos outros desalinhados.
É o nosso trabalho. Há quem ache que contamos de menos, há quem ache que contamos demais. No Campo Pequeno ouvi um dos meus heróis, José Mário Branco, cantar contra "os jornalistas que facturam com a desgraça". Mas estaria a falar da TVI ou de Kapuscinski? Da teleficção ou dos jornalistas que não obedecem aos militares e vão ver o que a guerra faz à gente?
Portanto, Joana, estudante de jornalismo apesar de tudo, costas largas.
Costas largas e um pouco de karaté.
viagenscombolso[arroba]gmail.com"
Domingo, 25 de Outubro de 2009
"O risco da bomba-relógio

A pergunta - feita por um jornalista que recebeu o Prémio Gazeta de Revelação em 2006 e que hoje continua a trabalhar sem vínculo para o "i", depois de ter já trabalhado para a "Visão" e para o "PÚBLICO" - espelha o desespero de uma geração sem perspectivas de atingir as garantias e a segurança laboral e material que aos seus pais e avós estiveram asseguradas.
Hoje em Portugal os números atingidos pela precarização do trabalho são avassaladores e atingem um crescimento exponencial não acompanhado por outros países europeus. Estima-se que cerca de dois milhões de trabalhadores, ou seja, 40 por cento da população activa, estejam numa situação de vínculo laboral não permanente ou mesmo sem vínculo e trabalhe sob fórmulas jurídicas diversas como os contratos a prazo, as bolsas, o trabalho temporário, o trabalho não declarado e a prestação de serviços mediante recibo verdes. Sabe-se ainda que cerca de 900 mil pessoas trabalham a recibo verde.
Acresce a este mundus horribilis o facto de em Portugal o desemprego ter atingindo, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística e no trimestre de Abril, Maio e Junho, os 9,1 por cento da população activa, isto é, mais de meio milhão de pessoas. Já a OCDE prevê que até ao final de 2010 em Portugal se chegue aos 11,7 por cento, com um total de cerca de 650 mil pessoas sem emprego.
Quando um novo governo se prepara para entrar em funções, é importante questionar e reflectir sobre qual a realidade social que está a ser criada em Portugal. E nesta reflexão importa ter em conta o facto de o poder executivo continuar a ser liderado por José Sócrates, o primeiro-ministro responsável pela revisão do Código do Trabalho que consagrou de forma simbólica o reconhecimento legal do trabalho precário.
Nada indica que de facto a situação social em Portugal esteja para melhorar. Mais, o problema do dumping social não é um fenómeno que possa ser associado a uma crise conjuntural, a um mau momento na economia. Tudo indica que as mudanças são estruturais e que resultam de uma real alteração do modelo de organização sócio-económico.
Por isso é problemático pensar qual o futuro dos jovens. Não só dos que participaram na sessão organizada pelos Ferve e cujo olhar expectante feria a sensibilidade e a consciência de qualquer um. Mas de todos os jovens que foram criados num mundo e num modelo sócio-económico em que apreenderam - com o que viram em casa através da experiência de pais e de avós - que o emprego é também uma profissão e uma carreira. Que um emprego é também um lugar de inserção social e de identificação no colectivo. Que o emprego é também uma função e um papel social.
E que ter emprego é o meio pelo qual se cumprem deveres para com a sociedade e se auferem direitos no plano da redistribuição da riqueza produzida pela sociedade. Riqueza essa que é garantida aos trabalhadores através do salário, mas também dos subsídios de Natal e de férias, do direito a subsídio de doença ou de desemprego.
Só que agora, quando chegou a sua vez, passaram a ser conhecidos como a geração que não tem direito a esses direitos e que apenas tem à sua espera trabalho precário e mal pago. E até já tem direito a alcunha: a geração dos 500 euros.
O modelo mudou e com ele o que parece ser o paradigma de quem trabalha. E se ainda persistem os privilegiados que vivem dentro do agora considerado como antigo modelo - e provavelmente sempre haverá, já que o modelo de economia capitalista pode não comportar a precariedade absoluta -, há uma massa crescente de trabalhadores que se vêem privados dos seus direitos laborais e sociais associados ao trabalho e que entram numa situação de isolamento absoluto, sem redes de inserção e de identificação na sociedade.
É que a regressão que em termos históricos se vive é-o no que se refere à garantia de direitos. Mas é nova a situação de isolamento e de não inserção dos indivíduos na sociedade. A individualização, a autonomização das relações sociais hoje agrava o isolamento do indivíduo, que se sente diferente ou excluído, e aumenta a estigmatização.
Ora a questão central que a pergunta de João Pacheco encerra é essa: até que ponto é que essa estigmatização, a de se ser um trabalhador diferente, um trabalhador sem direitos, um trabalhador de segunda, pode levar a actos de desespero e de raiva, que desencadeiem manifestações de agressão contra a sociedade que os maltrata. Até que ponto a violência que é sempre o ser-se estigmatizado é de tal forma atroz que motiva uma reacção e uma resposta de fúria contra a sociedade ou de pura agressividade sem objecto definido.
É dado como adquirido que os portugueses não são violentos, assim como é dado como adquirido que a atomização das relações sociais hoje seja razão suficiente para contrariar acções de revolta. Mas agora que um novo governo se prepara para entrar em funções, e mesmo sabendo que ele não irá inverter a situação criada e impor o fim do trabalho precário, é bom que se tenha consciência de que há uma bomba-relógio que pode estar accionada e com o tempo a contar.
(texto publicado na edição de ontem do "PÚBLICO")
"Uma ideia para Portugal "
"Assim se vai destruindo um País. Assim se vai enterrando uma geração cheia
de ideias, mas vazia de expectativas. Com cada vez mais precários em
Portugal, já estivemos mais longe de ver o desespero transformar-se em
revolta, já estivemos mais longe de ver os sem-direitos a pararem o País.
Ao novo Governo, sugiro que comece por cumprir a lei no Estado. A seguir,
todos teremos que seguir o exemplo.
João Pacheco
(jornalista e membro dos Precários-Inflexíveis)"
ideia publicada na edição deste fim-de-semana do diário "i"
Sábado, 24 de Outubro de 2009
Julgar a Justiça
O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Cerâmica do Centro acusa os sucessivos Governos de abandono: “São 40 famílias que ficaram sem nada”, indica o coordenador daquele sindicato. “Não têm subsídio de desemprego e não se puderam reformar. Fizemos várias propostas e nunca foram aceites. Temos forte esperança de que, até ao primeiro semestre do próximo ano, esteja tudo resolvido”, afirma ainda Jorge Vicente.
A Estaco era uma das mais emblemáticas de Coimbra.
Notícia aqui.
Deveremos começar a desenvolver formas de julgar a Justiça. Isto porque os seus agentes, aos vários níveis, têm sido orgãos distantes das pessoas, com dificuldade em sair de dentro do pó dos livros que pesam quilos mas pouco ordenam, e ainda, nalguns (muitos) casos, têm servido para atacar as pessoas e lhes retirar a confiança naquilo que é a reposição da vida, legal, mas acima de tudo, justa de quem quer viver do seu trabalho.
Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
Os suicídios na France Télécom e o novo fascismo
Sabemos que, no espaço de 20 meses já se contam 25 suicídios na France Telecom, entre várias outras tentativas frustradas, e que nem as medidas tomadas, nem as conversações com o Governo parecem conseguir fazer parar a onda de morte na empresa. O que está a falhar? Se todos os sinais do que se passa hoje em dia no mercado de trabalho não bastassem, este é o caso que deveria ser visto como um gritante alerta por parte de todas as empresas. O que é preciso para os grandes patrões/gestores acordarem? Ou até que ponto vai continuar a exploração no trabalho e a hipocrisia de se achar que há grandes diferenças entre esta e qualquer outra grande empresa?
Ora leiam:
As histórias falam de medo, de isolamento, humilhação, perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte
Gestão: o novo fascismo
Por José Vítor Malheiros
"Nos últimos 20 meses, houve 25 suicídios entre os empregados da empresa francesa de telecomunicações France Telecom. O último foi na semana passada, mas o caso já estava há semanas nas páginas dos jornais (desde o vigésimo suicídio) e já tinha desencadeado uma vaga de condenação, à medida que se iam tornando conhecidos pormenores sobre as condições de trabalho da empresa e as histórias pessoais dos suicidas, além de se ter sabido da existência de várias tentativas de suicídio frustradas.
Num clima de crescente indignação, as centrais sindicais francesas marcaram para hoje “uma jornada de luta” na France Telecom para exigir medidas “susceptíveis de modificar de forma durável e profunda a organização, o conteúdo e as condições de trabalho” na empresa e instaram os trabalhadores “a agir de todas as formas” possíveis para mostrar a sua recusa das condições de trabalho desumanas a que são submetidos.
Apesar de tudo isto, aquilo que sabemos das condições de trabalho e da chamada “gestão dos recursos humanos” na France Telecom não parece diferente, em essência, daquilo que se passa em milhares de outras empresas. A própria France Telecom tem aliás referido, em sua defesa, que a percentagem de suicídios é a normal e que o elevado número é de esperar numa empresa de 100.000 trabalhadores. Onde o spin é mais difícil de aplicar é nas mensagens deixadas por alguns dos suicidas, onde o ambiente desumanizado da empresa e a pressão colocada sobre os trabalhadores é responsabilizada directamente.
As histórias que ficámos a saber sobre a France Telecom nos últimos dias são terríveis: trabalhadores obrigados a mudar constantemente de posto e de funções contra sua vontade em nome da “flexibilidade”; a quem são impostos objectivos irrealistas e que são penalizados por não os atingir; destruição sistemática de equipas de trabalho e do espírito de equipa em nome da “adaptabilidade”; empregados que se vão buscar à casa de banho porque ultrapassaram os dez minutos da pausa-chichi; esquemas de “auto-avaliação” que apenas servem para intimidar os trabalhadores e para os obrigar a reconhecer que falharam e a aceitar penalizações; total ausência de discussão ou sequer de explicação dos objectivos da empresa, sempre impostos de cima; pessoas mantidas isoladas por medidas de “mobilidade” que destroem as relações pessoais entre trabalhadores; obrigadas a competir com os colegas para evitar a “redundância” e o despedimento; com medo da delação dos colegas e das punições dos capatazes, desconfiadas. As histórias falam de medo, de isolamento, de humilhação, de perda de confiança, de ausência de solidariedade, de perda do gosto no trabalho, de perda de auto-estima, de sentido e de identidade, falam de morte. E, no entanto, repito, nada disto é novo, nada disto é diferente. Cada vez mais as empresas se parecem mais com isto, cada vez mais este discurso da competitividade desumana ganha direito de cidade, cada vez mais o stress e o burnout se consideram como o preço justo a pagar pelos elos mais fracos da cadeia, cada vez mais o discurso da “aposta no capital humano”, da “promoção da criatividade” e da “prioridade à inovação” esconde uma prática esclavagista, desumana, repressiva, atentatória dos direitos, da liberdade e do espírito humano. Cada vez mais as empresas são exemplo de uma prática ditatorial, esmagadora das liberdades, da crítica, da expressão e dos indivíduos que, se acontecesse cá fora, na rua, no espaço público, todos julgaríamos inaceitáveis. Dentro da empresa, em nome da competitividade ou por medo do desemprego, aceitamos o fascismo. "
Por aqui gritamos ‘fascismo nunca mais’! Mais palavras para quê?
Jornalistas precários no Semanário ficam sem trabalho

O jornal Semanário não esteve hoje nas bancas, depois de Rui Teixeira Santos ter confirmado que o jornal iria encerrar.
Os 16 jornalistas que garantiam a redacção do jornal trabalhavam quase todos a recibos verdes e apenas foram informados no início desta semana que iriam ficar sem
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
A farsa continua
Mas para bom entendedor...
Ainda há dias, uma das maiores empresas portuguesas desse submundo andava a comprar partes de outras empresas por milhões e milhões de euros. E ao mesmo tempo tinha artigos por pagar desde Maio a trabalhadores precários que lá publicam, contra pagamento à peça. E estou a falar de dinheiro que em alguns casos era a única fonte de rendimento dessas pessoas.
Mas já se sabe: para dominar o mercado há dinheiro a tempo e horas, para pagar aos precários logo se vê.
Depois não me venham falar em "altas autoridades", nem em "autoridades para as condições" nem sequer em democracia.
um abraço,
João Pacheco
(jornalista e membro dos Precários-Inflexíveis)
FERVE denuncia Falsos Recibos Verdes no ITN

Alguns destes trabalhadores iniciaram como investigadores que entretanto passaram a trabalhar a recibos verdes mas com horário de trabalho, chefias e até cartão de ponto.
O FERVE apresenta assim mais uma situação onde o próprio Estado mantém trabalhadores/as a falsos recibos verdes apesar das sucessivas promessas de regulação do sector público.
Os Precários Inflexíveis solidarizam-se com o pedido do FERVE e pedem a todos/as que copiem o texto abaixo e enviem para os emails dos grupos parlamentares:
gp_pp@pp.parlamento.pt, gp_psd@psd.parlamento.pt, gp@ps.parlamento.pt, pev.correio@pev.parlamento.pt, gp_pcp@pcp.parlamento.pt, blocoar@ar.parlamento.pt
Excelentíssimos/as senhores/as:
Tomei conhecimento de que o Instituto Tecnológico e Nuclear, tutelado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, tem 14 trabalhadores/as a exercer funções a falsos recibos verdes.
Estes profissionais, cujas habilitações académicas se estendem até ao pós-doutoramento, exercem funções permanentes, estão inseridos numa equipa, têm chefias e horário de trabalho definido. Aliás, desde o início de 2009, têm cartão de ponto.
Algumas destas pessoas começaram por trabalhar com recurso a bolsas de investigação que depois se converteram em falsos recibos verdes. A precariedade destes profissionais arrasta-se há vários anos, com promessas sucessivas, mas nunca concretizadas, de celebração de contratos de trabalho.
A situação profissional destes/as trabalhadores/as do ITN vem comprovar que os falsos recibos verdes se mantém nos Institutos Públicos, infirmando, mais uma vez, as repetidas promessas do governo cessante de que iria fazer a sua parte no que concerne à regularização dos falsos recibos verdes no sector público.
Considero fundamental que estas 14 pessoas vejam a sua situação profissional regularizada com a celebração de contratos de trabalho em funções públicas com toda a celeridade.
Com os melhores cumprimentos;
Temporários são primeiros a perder emprego

«Temporários são primeiros a perder emprego
Os trabalhadores empregados através de agências de trabalho temporário são os primeiros a cair no desemprego em resultado da crise económica e financeira, revela um novo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Em Portugal, as estatísticas da OIT, do início desta década, indicam que 45% dos trabalhadores cedidos por estas agências ocupavam um tipo de emprego que não requeria qualificações.
Destes, a maioria (28%) trabalhava na construção, em fábricas e nos transportes, 17% nos serviços e 13% no sector administrativo.
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
Cinismo a Recibos Verdes
Agora foi a vez da PLMJ – AMPereira, Saragga Leal, Oliveira Martins, Júdice e Associados - que, num seminário organizado em conjunto com a multinacional Mercer, defendeu, pela voz de Joana Lança, que "as medidas de política activa de emprego previstas no novo regime de descontos para a Segurança Social não representam um efectivo incentivo à contratação porque o uso de prestadores de serviços (“falsos recibos verdes”) paga menos encargos sociais do que trabalhadores contratados".
A técnica da famosa firma de advogados "referiu explicitamente que os aumentos de encargos previstos no novo Código [dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Segurança Social] representavam um “desincentivo à contratação”, dado que os encargos com os prestadores de serviços eram bastante mais reduzidos".
Vale a pena ler na íntegra o artigo do Público onde se explica por que motivo o novo Código Contributivo da Segurança Social vem na prática incentivar os empregadores à prossecução da política de precarização do emprego que vem sido seguida em Portugal nos últimos anos.
A não perder também a entrevista feita a Vieira da Silva em Abril do ano passado (a respeito do então novo Código do Trabalho), onde o (esperamos que) ex-ministro tentou com todo o descaramento deste mundo defender a anedota dos cinco por cento para as empresas utilizadoras de "prestadores de serviços", garantindo que não estava a "tributar a cinco por cento uma situação ilegal" ou seja, que não se tratava de uma medida de combate aos falsos recibos verdes. Mas isso já nós sabíamos.
Que o governo onde Vieira da Silva e seus amigos pontificaram não tomou uma única medida de combate aos falsos recibos verdes e também que que estes crescem e se multiplicam serenamente - e legitimados pelo Poder - no país de todas as impunidades.
Precários Inflexíveis acusam autarquia de "situação de precariedade gritante"
Via Lusa:
De acordo com a organização de trabalhadores precários Precários Inflexíveis (PI), “a situação de precariedade laboral na Câmara Municipal de Almada é gritante”, afirmou à Lusa Ricardo Moreira, porta-voz da campanha de 2009, Autarquia Sem Precários.
“Ao mesmo tempo que lançámos às autarquias o desafio de chegarem ao fim da legislatura que agora terminou sem trabalhadores precários, lançámos o desafio à sociedade civil, perguntando se alguém conhecia casos de precariedade nas Câmaras Municipais”, explicou Ricardo Moreira.
“O resultado foi”, garante, “uma chuva de respostas”: “Na Câmara de Almada a situação é gritante. Recebemos quatro denúncias que demonstram e atestam o desespero das pessoas que estão a viver nestas condições”.
“A cada testemunho recebido, enviávamos um pedido de esclarecimento à autarquia para confirmar se seria verdade. Até à data ainda não obtivemos nenhuma resposta”, acrescentou.
José Julião, antropólogo, autor de um dos testemunhos, trabalhou no Museu da Cidade durante 10 anos, de 1998 a 2008: “Trabalhei sempre a recibos verdes como consultor técnico para a área da museologia”, contou à Lusa.
“Mas trabalhei a tempo inteiro, a cumprir horário, incluído no mapa de férias, sujeito a hierarquia, sempre sem subsídio de refeição ou transporte, sem horas extra e com trabalho aos sábados, domingos ou noites”, continuou.
Para José Julião, “tratava-se de um contrato tacitamente renovável, até que em Setembro de 2008, no último dia legal para que isso acontecesse, os recursos humanos informaram, por carta, de que iam prescindir dos seus serviços”. O caso está agora em tribunal. (...)»
Noticia DN: aqui
Comunicado dos PI no Jornal Oeste on line: aqui
Novo logótipo do PI
Durante estes quase 3 anos da construção da semente do movimento de trabalhadores precários lançámos panfletos, livros, actuámos sobre a revisão do código de trabalho, entregámos os Prémios Precariedade 2008, enfrentámos da precariedade lava as mãos, pedimos às Câmaras Municipais compromissos fortes contra a precariedade, ajudámos a construir a parada de precários Mayday, criámos pontes a discutir outras lutas, organizámos debates... estivemos na rua a lutar contra a precariedade.
Agora que o futuro se desenha cada vez mais difícil para quem trabalha e em que quem é precário/a será ainda mais sacrificado, nós temos cada vez mais a certeza que queremos fazer parte da(s) luta(s).
Este logótipo, em que o i está de pernas para o ar como as nossas vidas, é feito dos rabiscos de todos/as os/as que quiserem vir dizer basta à Precariedade.
Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
Receitas das empresas de trabalho temporário deverão subir
No entanto, as receitas vão subir este ano, apesar de ter menos explorados. A conclusão é clara. Quando existe maior mão-de-obra disponível, e menos oferta de emprego (agravada pelo sub-emprego e ausência de aplicação da lei), o valor do trabalho baixa, logo aumenta a rentabilidade para as empresas que exploram o trabalho mais barato.
O presidente da APESPE diz que as receitas aumentam porque o trabalho é mais qualificado. Mas claro que ele pode dizer o que quiser. Aliás, em seguida, o senhor presidente da associação de empresas de exploração laboral entra em acordo com o PI, pois confirma que "Com os investidores e os empresários a demonstrarem algum regresso à confiança, os primeiros a serem despedidos, que foram os trabalhadores temporários, serão certamente agora os primeiros a serem contratados". Certamente. Os precários são os mais frágeis, por isso são os primeiros a ser despedidos, e são os mais baratos e sem direitos por isso são os primeiros a serem contratados. De acordo.
O também presidente da Manpower, fecha com chave de ouro ao rejeitar associar o trabalho temporário à precariedade laboral, referindo que este tipo de vínculo tem claras vantagens, quer do lado das empresas, quer do lado dos trabalhadores, como a rapidez na colocação.
Do lado dos donos das empresas sabemos bem que há todas as vantagens que decorrem da exploração dos outros. Do lado dos trabalhadores é como dizer que o trabalho à jorna tem todas as vantagens. Vem a carrinha buscar todas as madrugadas uns quantos "afortunados" que se dirigem aos campos de trabalho.

Nós defendemos um modelo sustentado de sociedade e trabalho em que os trabalhadores não são números no enriquecimento dos patrões.
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Van Zeller põe as garras de fora

Mas será que o argumento de Van Zeller tem alguma lógica?
Carvalho da Silva, Secretário Geral da CGTP, já veio repudiar estas afirmações dizendo que "o país deve ter vergonha dos empresários que lamentam não poder subir o salário mínimo 80 cêntimos por dia", e até a UGT vem defender que a subida em 2010 do salário mínimo para 475€ é obrigatória.
Além disso, do impacto que esta pequeníssima subida poderá ter na vida de milhares de pessoas que são, por norma, as mais fracas e mais necessitadas, que impactos poderia realmente o congelamento dos salários mais um ano?
A inflação homologa em Portugal está negativa desde há 7 meses, o que representa a maior queda de preços ao consumidor dos últimos 50 anos: hoje compramos os produtos 1,6% mais baratos do que em 2008. Isto é resultado da crise económica nacional e internacional e também da recessão de que teremos saído apenas tecnicamente. Mas o que à partida nos pode parecer muito bem, a baixa de preços, pode levar a um período de deflação, o que teria o impacto desastroso nas empresas e nas famílias.
Assim, o argumento de Van Zeller parece cair pela base. Se bem que o congelamento dos salários poderia ajudar as exportações esta politica iria arrefecer o consumo interno e logo criar condições ao aparecimento da deflação. Um dos poucos mecanismos que os governos têm para quebrar períodos deflacionários é justamente o aumento do salário mínimo e este novo governo Sócrates vai ter de pensar muito bem antes de aceitar a chantagem de Van Zeller. Se o fizer poderemos estar condenados a ainda mais falências das empresas e ainda mais desemprego.
Notícias: aqui e aqui
Ricardo Santana
Foto Gorgulha
Domingo, 18 de Outubro de 2009
Livro e ideias a Ferver
Carvalho da Silva, Secretário Geral da CGTP, São José Almeida, Jornalista, Tiago Gillot, dos Precários Inflexíveis, e Cristina Andrade, pelos organizadores FERVE, iniciaram a análise poltítica e social sobre o mundo do trabalho onde a precariedade toma forma e se generaliza.

As consequências da precariedade a todos os níveis da sociedade onde vivemos, as formas de organização dos trabalhadores, o papel dos movimentos informais na influência dos diversos actores sociais ou a relação que se quer cada vez mais forte entre sindicatos e movimentos foram alguns dos vectores analisados.
Deste encontro que vem sendo cada vez mais presente, entre a maior central sindical nacional - CGTP - e os movimentos de trabalhadores precários, nascem com mais força algumas ideias para que nos próximos anos a intervenção sindical e os movimentos façam a luta organizada contra a precariedade no trabalho e na vida e contra todos aqueles que defenderem este modelo de exploração e de ausência de regras nas relações desiguais entre trabalhadores e patrões.
A apresentação que se transformou num aceso debate entre algumas dezenas de pessoas, prolongou-se até depois da 1h da manhã na Casa do Brasil, a quem agradecemos mais uma vez a disponibilidade.
Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
O monstro do IVA ataca de novo?
Então, dizem os excelentíssimos senhores António Carlos Santos, ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Ferreira Martins, docente universitário e Nunes dos Reis, ex-director-geral da máquina fiscal, que o objectivo das propostas é reduzir ao "mínimo" os beneficiários no actual regime de isenção do imposto para travar a fuga e a fraude fiscal ao imposto.
Ignorando que em Portugal existem cerca de 900 mil falsos Recibos Verdes (a maioria deles ganhando menos de 10.000€/ano) ou seja, quase um milhão de pessoas cujos patrões não pagam o que devem ao Estado e à Segurança Social, e muito menos aos trabalhadores explorados sem os mínimos direitos legais exigíveis, vêm os muito respeitosos especialistas em questões fiscais, propor que essas pessoas passem a "pagar" IVA.
Ou seja, na prática, significa que boa parte da força de trabalho mais explorada e fragilizada a nível nacional terá de apresentar uma conta ao patrão com mais 20% em cima do seu salário. Não será preciso ser um distinto especialista para saber o que acontecerá se chegarem ao seu precário posto de trabalho e pedirem mais 20% ao patrão.
Os especialistas passam para o campo do ridículo quando dizem que a isenção de IVA "arrisca-se a ser uma fonte de alimentação do mercado paralelo e da fuga e evasão fiscais". Num país onde a lei do trabalho não é cumprida em tantas empresas, em que quase um milhão de pessoas circula e vende o seu trabalho de forma alheia ao Código do Trabalho e à inexistente ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho), onde os patrões não pagam à Segurança Social o que devem, onde profissões como o Jornalismo, Arquitectura, Artes e Espectáculos e tantas outras funcionam quase literalmente à margem da lei, só a falta completa de respeito por quem vive do seu trabalho é que lhes permite abrirem a boca para propor estas alterações.
France Telecom: 25 suicídios num ano e meio
No último ano e meio, a pressão, repressão e humilhação exercidas pela direcção da empresa sobre os trabalhadores levou a 25 mortes.
Desde Setembro que a empresa se declara preocupada e pronta a tomar medidas para combater o stress laboral, como a contratação de 100 funcionários de recursos humanos "de proximidade" e ligados à medicina do trabalho.
O que é certo é que nem as conversações com o Governo, nem estas preocupações parecem resultar em medidas que invertam a situação em que se encontram os trabalhadores e estes continuam a sucumbir face às condições laborais.
Notícias aqui, aqui.
Lançamento do Livro do FERVE hoje 21h30 na Casa do Brasil

com a participação de:
Cristina Andrade (FERVE)
Manuel Carvalho da Silva (secretário-geral da CGTP)
São José Almeida (jornalista do Público)
Tiago Gillot (Precários Inflexíveis)
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
Baptista Bastos :: Meditação sobre os suicidas da France Telecom
Em nome da "competitividade" e em obediência às leis do mercado, um "gestor", Louis-Pierre Wenes, procedeu, a partir de 2005 (ele entrara na empresa em 2002), adjuvado por Didier Lombard, à "modernização" da empresa, o terceiro operador de telemóveis da Europa e o primeiro fornecedor de acesso à Internet.
A brutalidade das decisões não olhou a meios para justificar os fins. Diz a France Press que "o plano redundou num controlo cerrado dos funcionários, dos tempos de pausa, uma pressão insuportável por ganhos de produtividade e desumanização nas relações laborais. Os comunicados dos sindicatos sublinham a incerteza organizada sobre a permanência de cada posto de trabalho, mudanças forçadas de funções, pressões insidiosas para que os trabalhadores se demitissem ou aceitassem despromoções, tentando fazê-los responsabilizar-se por essas novas situações."
O "mercado", o "neoliberalismo" e a globalização atingiram novos patamares de infâmia. Em Portugal desconhece-se a estatística de suicídios causados por compulsões semelhantes, e o facto de estarmos à beira dos setecentos mil desempregados deveria preocupar, seriamente, aqueles que nos governam. A desumanização que se regista no mundo do trabalho explica-se pelo facto de o "homem de organização", quero dizer: o "gestor", não pode permitir-se ter princípios ou escrúpulos: deve, isso sim ter reflexos.
A degradação da vida empresarial resulta dessa cartografia de horrores que consiste nos objectivos a atingir, nas etapas que se tem de percorrer, e dos lucros que terão de ser rápidos e vultosos. O "gestor" é muitíssimo bem pago para ser um cão-de-fila. Um universo sem paixões, gelado, uma mistura de indiferença humana com uma selvajaria abstracta.
"Que sociedade estamos a construir? Que mundo vem aí?" As dramáticas perguntas adquirem um novo relevo, quando se sabe que as "soluções" aplicadas pelos tais "gestores" revelam-se ineficazes e conduzem as empresas, mais tarde ou mais cedo, à falência. À falência económica e financeira, porque a falência moral já habita no corpo de quem as dirige.
A "organização", o "grupo", correspondem a esse capitalismo predador, que mantém uma "democracia de superfície", feroz e impositiva, que tem aniquilado sindicatos, partidos progressistas, organizações cristãs recalcitrantes, homens e mulheres, sobrepondo uma cultura que provoca a renúncia de pensar. O poder económico a sobrepujar o poder político. Ainda há semanas, o eng.º Francisco Van Zeller, presidente da CIP, se opunha, veementemente, à casualidade de o PS estabelecer acordos, parlamentares ou outros, com o Bloco de Esquerda. A sobreposição chega a ser aberrante. E o desprezo pela democracia, mesmo tão fanada como a portuguesa, associa-se a um postulado segundo o qual estaríamos no fim das ideologias. É verdade que o PSD nunca foi "social-democrata" (quando muito, conservador-liberal), e o PS foge do socialismo como Satanás da cruz (salvo seja). Esta confusa apropriação indevida de nomes causou estragos irreparáveis na "democracia" que por aí está.
O panorama nacional é assustador. Salvam-se os bancos, em nome não se sabe muito bem de quê e de quem, e destroem-se vidas. O tema da emancipação da humanidade não perdeu prestígio nem poder. As grandes questões do trabalho, do capitalismo, das novas relações sociais, do desemprego e da subida da miséria e da fome são omissos nos chamados órgãos de informação. No caso português, a ausência destes temas obedece a indicações e a ordenanças. As mais radicais das ideias reaccionárias afloram em numerosos artigos, comentários e debates. É a "democracia de superfície" em toda a sua expressão. Repare-se que o caso da France Telecom mereceu medíocres chamadas de primeira página, e notícias reduzidíssimas no interior dos jornais. E este é um assunto que, pela sua natureza trágica e pela dimensão social que exprime, deveria adquirir enunciações mais amplas.

Há algo de dissolução rápida nas nossas sociedades. Quando os laços relacionais são tão abruptamente cortados, como na France Telecom, temos de perceber que o problema não é isolado. E que a ameaça começou a constituir como perigo imediato. Nomeemos os problemas e saibamos enfrentar os riscos decorrentes. A Imprensa e os jornalistas honrados têm uma palavra a dizer. Não será a última mas é, certamente, a mais importante. Se eu lhes merecer, contem comigo.
Baptista Bastos in Jornal de Negócios, 09 Out. 2009
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Opinião :: Qimonda despede 490?
Portugal tem uma rede de PME bastante grande e em que se verifica um nível muito baixo de formação dos seus administradores. A aposta é no modelo de baixos salários e pouca formação, em geral, despreza o conhecimento.
O Estado passou para uma posição, no mínimo, equidistante entre patrões e empregados, contrariando ou sendo autista à posição altamente desprotegida e vulnerável dos trabalhadores. A concertação social e o diálogo entre Estado, patrões e trabalhadores é um engano. Os trabalhadores são chantageados todos os dias e hoje os governos ficam a ver, ou surfam a onda da exploração (veja-se ASP).
O capital, através dos Bancos, gozam de uma impunidade que lhes permite ditar quantos milhões ganham por dia com os juros que as pessoas lhes pagam de forma exorbitante. Ou seja, por cá as famílias Mello, Espírito Santo entre outras decidem qual a parte dos nossos salários que lhes será atribuída através da discricionariedade da imposição das taxas de juro e comissões bancárias.
A Qimonda vai ficar (em boa parte) nas mãos do Estado, do BES e do BCP, e desde Julho, quando disseram que manteriam 1000 postos de trabalho, já baixaram brutalmente o número de pessoas a manter. Ontem seriam já menos de 500.
Mas ontem também, com a disseminação brutal das reacções contra este autêntico escândalo (590 despedimentos), foram forçados a recuar e já não vão despedir 100 das 590 pessoas que estavam previstas.
A única coisa que verga o capital e os patrões é a pressão social que a força das posições dos trabalhadores pode impor. Estamos todos do lado dos trabalhadores da Qimonda. Estando o Estado, o BES e o BCP do outro lado, sabemos que é possível a manutenção de todos os postos de trabalho, mesmo que isso signifique a perda de receitas da banca.
Fica-nos a lição para todos os que lutam pelos direitos de quem trabalha. Queremos colocar a pressão do outro lado.
rUImAIA
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Debate amanhã à noite em Lisboa

"15 DE OUTUBRO | QUINTA-FEIRA | 21H30
Este jornalismo para quê?
A crise do jornalismo e dos meios de comunicação social aumentou com a crise económico-financeira, mas há muito que vem sendo anunciada. Com base no dossiê «Jornalismo: que futuro?», publicado na edição de Outubro do Le Monde diplomatique, convidamo-lo(a) a debater temas como os jornais e a Internet, a propriedade e o financiamento dos media, o que é uma informação de qualidade e a autonomia e precariedade na profissão de jornalismo. Como sair da crise?
Este jornalismo para quê?
Com a participação de
Alfredo Maia (presidente do Sindicato dos Jornalistas)
Carla Baptista (FCSH-UNL)
Daniel Oliveira (jornalista)
João Pacheco (jornalista, Precários Inflexíveis)
Sandra Monteiro (dir. Le Monde diplomatique - ed. port.)
O debate terá lugar na zona do bar do Instituto Franco-Português (Av. Luís Bivar, 91 - Lisboa), no dia 15 de Outubro, quinta-feira, às 21h30."
"Autarquia Sem Precários" começou a traçar o mapa nacional da precariedade nos municípios

Este desafio para um compromisso dos autarcas era e é essencial para alterar esta triste realidade. Mas era preciso também um confronto com as vozes que estão há demasiado tempo silenciadas pelo medo. Por isso, apelámos a toda a sociedade civil, em particular a todos os trabalhadores das autarquias do país, para revelarem as histórias escondidas nos gabinetes das Câmaras e empresas municipais. E foi assim que muitas vozes falaram pela primeira vez, revelando ao país uma realidade que já ninguém pode dizer que não conhece.
Estes mandatos nas 308 Câmaras Municipais do país que agora se iniciam têm, portanto, um renovado desafio e responsabilidade. Tal como em crescentes sectores do trabalho em funções públicas, onde devemos exigir ao Estado as especiais responsabilidades que lhe são devidas, as autarquias estão sob escrutínio relativamente ao cumprimento dos direitos dos seus trabalhadores. Como sempre, cá estaremos para esse combate que, estamos certos, contará com mais força e uma nova exigência.
Um primeiro mapa da precariedade: vozes que falaram, num mar de silêncios
Olhando para os resultados concretos e informação recolhida por esta iniciativa, começamos por destacar os municípios que assumiram o compromisso de não recorrer à precariedade: Amadora, Évora, Funchal, Penalva do Castelo, Portimão, Vale de Cambra e Vila Nova de Famalicão. É verdade: apenas 7 autarquias quiseram anunciar a recusa da precariedade. No entanto, registamos que, entre elas, se contam capitais de distrito e outros municípios relevantes, representando no total mais de meio milhão de pessoas.
O contacto com os trabalhadores e a recolha de testemunhos, tantas vezes brutais pelas histórias que revelam, foi, talvez, o resultado mais profundo desta campanha: chegaram-nos denúncias de precariedade relativamente a 23 concelhos do país, quase sempre contadas na primeira pessoa, apesar da exigência de anonimato ter sido unânime – o que revela bem o clima sob o qual se impõe a precariedade. São histórias de falsos recibos verdes, de contratos a prazo ilegais ou de abuso no recurso a estágios e programas ocupacionais de emprego. Entre os municípios abrangidos, contam-se alguns dos mais importantes do país, diversas capitais de distrito e municípios com elevada densidade populacional, representativos de cerca de dois milhões de residentes.
Alguns destes testemunhos tiveram contraditório por parte das Câmaras acossadas. Concretamente, Ponta Delgada, Estarreja e Oeiras, confrontadas com as denúncias, garantiram não recorrer à precariedade, o que originou a sinalização de conflito no nosso sítio na internet.
Infelizmente, em dois casos, justamente em duas Câmaras Municipais da maior importância a nível nacional, esta campanha acabou por constatar o pior: Guimarães e Sintra são Autarquias Com Precários. Dois casos que ficaram conhecidos: em Guimarães, o sr. Presidente António Magalhães mentiu aos Precários Inflexíveis e ao país, uma vez que, depois de ter garantido que não recorria a trabalho precário, foi evidente que muitas trabalhadoras, auxiliares da acção educativa, se encontravam há vários anos em situação precária; em Sintra, a empresa municipal Educa dispensou vergonhosamente trabalhadores que há anos se encontram a falsos recibos verdes, como foi possível provar pela acção desenvolvida pelos Precários Inflexíveis.
No total, a iniciativa Autarquia Sem Precários recolheu informação relativa a 30 municípios, representativos de 22,42% da população residente em Portugal. Também relevante é o facto da informação recolhida ter âmbito nacional: de Norte a Sul do país, incluindo as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, 13 dos 18 distritos do Continente foram abrangidos, incluindo 5 capitais de distrito (Évora, Faro, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo) e as capitais das Regiões Autónomas (Funchal e Ponta Delgada).
Como desde o início da campanha, toda a informação está disponível em www.autarquiasemprecarios.info: o sítio na internet que suportou a iniciativa e que se mantém online e que contou com milhares de visitas.
Apresentamos um quadro final, que resume a informação recolhida e aponta todas as responsabilidades futuras: de quem assumiu o compromisso, de quem apenas respondeu com o silêncio, mas também nas autarquias em que ficam as dúvidas ou as certezas de que a precariedade já chegou. Consideramos esta responsabilidade ainda maior depois de serem conhecidos os resultados finais das eleições do passado domingo, que garantiram maiorias absolutas a cerca de 90% dos novos executivos municipais. Perante todas as situações – as conhecemos agora e todas as outras a que estaremos atentos no futuro –, afirmamo-nos solidários com os trabalhadores das autarquias e, como sempre, disponíveis para um combate sem tréguas à precariedade que, não queremos nem podemos ignorar, precisa da mobilização de toda a sociedade portuguesa.
Terça-feira, 13 de Outubro de 2009
Fenprof: "Há exploração de professores nas Actividades de Enriquecimento Curricular"

Qimonda despede 590 trabalhadores :: Estado fica a ver? Será cúmplice?
Em Julho, admitia-se que os 1000 trabalhadores que se mantinham na empresa teriam a continuidade assegurada. Já em Setembro, a empresa anunciou que iria ficar apenas com 770 trabalhadores, que seriam os necessários quando se entrasse em velocidade de cruzeiro. Hoje preparam-se para ficar com menos de 500 postos de trabalho.
O mais grave desta situação é que os grandes responsáveis são o Estado, o BCP e o BES, dois dos maiores bancos nacionais. Serão os principais accionistas da empresa, dado que são também neste momento os principais credores. O que quer dizer que o Estado e o capital (Banca) estão mais uma vez de mão dada a tentar livrar-se de trabalhadores não havendo qualquer compromisso de responsabilidade social para manter os trabalhadores.
Utilizando a situação de fragilidade dos trabalhadores e a incapacidade da economia, das empresas e do Estado Português em criar emprego que valoriza o conhecimento, o Estado, conjuntamente com os bancos BES e BCP, estão a manobrar para reduzir custos de trabalho e utilizam uma estratégia muito pouco clara relativamente ao futuro dos postos de trabalho.
- Diz-se que existe a possibilidade da ser dada preferência à futura (re)contratação dos trabalhadores que serão despedidos nos próximos dias, mas, será que as condições serão as mesmas ou perderão direitos obtidos com o trabalho e experiência anteriores?
- Porque motivo, mais uma vez, são os trabalhadores que estão a pagar a incapacidade da administração de uma empresa?
- Porque motivo não são o Estado e os dois grandes bancos, BES e BCP, a suportar boa parte dos custos sociais dos problemas na Qimonda, visto que são também actores com muito maior responsabilidade e capacidade de intervenção nas decisões estratégicas de política e economia no país?
- Será que o impacto da manutenção dos 1000 postos de trabalho na Qimonda são um preço que o Estado, o BES e o BCP não podem pagar a bem da responsabilidade e estabilidade social?
Assim se prova o castelo de cartas em que consiste o Choque Tecnológico e a enorme falta de apetência das empresas pela tecnologia e conhecimento. Sublinha-se nestes dias a impreparação e incapacidade da gestão das empresas em Portugal. A atracção pelo modelo de baixos salários e poucos direitos contrasta com o a valorização da ciência, da formação e do conhecimento. Esse é o problema do trabalho em Portugal.
Notícias aqui, aqui, aqui
Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Autarquia sem Precários :: Quatro testemunhos de precariedade e chantagem na C. M. de Almada















